De repente você está velho. Aos sessenta e tantos anos, suas pernas não lhe atendem tão bem, suas juntas perdem parte da lubrificação, seus músculos vão perdendo massa e você vai se tornando lento e cansado. Um dia, um jovem com um terço de sua idade lhe aconselha correr. Mas o faz com tamanha irreverência que você se sente chocado. Após alguns longos minutos de conjecturas, você, finalmente, perdoa a maneira descuidada do seu interlocutor. Afinal, você mesmo poderá ter feito isso quando era jovem, concorda?
CORRE, VELHO. CORRE!
Enquanto eu corria para embarcar no ônibus que havia parado a uns cinquenta metros do ponto em Macaé, assim me “incentivava” o jovem que desembarcara do coletivo. Seguindo o conselho do rapaz, acelerei o passo, mesmo sem conseguir correr. Assim que me sentei, não pude deixar de lembrar da irreverência daquele jovem que, mesmo sem intenção de me magoar, o tinha feito, chamando-me de “velho”.
“Corre, velho. Corre!” Duas horas e meia de viagem, de Macaé a Cabo Frio, e aquela frase me veio “martelando” a cabeça, tirando-me a possibilidade de descansar no confortável ônibus intermunicipal. Nem o ar condicionado ou a bela paisagem conseguiram me consolar e foi nascendo em mim a vontade de responder àquele rapaz na mesma medida, à altura do que ele me dissera. Quando nos cruzamos, a meio caminho da porta do ônibus, pude notar que ele transportava um envelope pesado, recheado de folhas tamanho ofício. Estava bem trajado e arrumado, como fazem pessoas à procura de emprego e afins. Como a região era a área de empresas que tratam do petróleo de Macaé, facilmente depreendi que o menino almejava uma contratação no ramo do óleo e do gás e que aquele chumaço de papéis deveria ser um monte de currículos que ele iria distribuir pelas multinacionais da cidade, sonhando com uma resposta que lhe favorecesse. Fiquei pensando...um menino de vinte e dois anos, se muito, cruza com um senhor de sessenta e oito e, em tom irreverente, aconselha o “velho” a correr para que não perca o ônibus...
Eu tinha o triplo da idade dele. Estava voltando de uma jornada de aulas que leciono a grupos de técnicos e engenheiros de uma das maiores empresas de petróleo do mundo. Tenho três filhas lindas e resolvidas que me deram seis netos. Plantei várias árvores, escrevi até agora quatro livros e mais de mil e quinhentos artigos, poemas e ensaios. Conheci cem vezes mais pessoas, entre amigos, namoradas, alunos e mestres que aquele rapaz. E já não tinha mais a necessidade de distribuir currículos a esmo. Já tinha o meu lugar ao Sol.
Subitamente senti vontade de chorar pelo rapazinho que alegremente me incentivara a correr. Quantos da idade dele chegariam à minha? Quantos, tão jovens e bonitos, viris e tecnológicos, musculosos, celularifônicos, twiterianos, internetianos, afinal, serão vitimados pelos criminosos, afogados pelos tsunamis, soterrados, atropelados ou contaminados e jamais terão a sorte de poder ouvir um jovem a lhes lembrar a velhice... assim como: “Corre, velho. Corre!”
Então, do fundo do meu coração perdoei a brincadeira dele e pedi a Deus que lhe desse a chance, a magnífica chance de envelhecer.
“Corre, velho. Corre!” Duas horas e meia de viagem, de Macaé a Cabo Frio, e aquela frase me veio “martelando” a cabeça, tirando-me a possibilidade de descansar no confortável ônibus intermunicipal. Nem o ar condicionado ou a bela paisagem conseguiram me consolar e foi nascendo em mim a vontade de responder àquele rapaz na mesma medida, à altura do que ele me dissera. Quando nos cruzamos, a meio caminho da porta do ônibus, pude notar que ele transportava um envelope pesado, recheado de folhas tamanho ofício. Estava bem trajado e arrumado, como fazem pessoas à procura de emprego e afins. Como a região era a área de empresas que tratam do petróleo de Macaé, facilmente depreendi que o menino almejava uma contratação no ramo do óleo e do gás e que aquele chumaço de papéis deveria ser um monte de currículos que ele iria distribuir pelas multinacionais da cidade, sonhando com uma resposta que lhe favorecesse. Fiquei pensando...um menino de vinte e dois anos, se muito, cruza com um senhor de sessenta e oito e, em tom irreverente, aconselha o “velho” a correr para que não perca o ônibus...
Eu tinha o triplo da idade dele. Estava voltando de uma jornada de aulas que leciono a grupos de técnicos e engenheiros de uma das maiores empresas de petróleo do mundo. Tenho três filhas lindas e resolvidas que me deram seis netos. Plantei várias árvores, escrevi até agora quatro livros e mais de mil e quinhentos artigos, poemas e ensaios. Conheci cem vezes mais pessoas, entre amigos, namoradas, alunos e mestres que aquele rapaz. E já não tinha mais a necessidade de distribuir currículos a esmo. Já tinha o meu lugar ao Sol.
Subitamente senti vontade de chorar pelo rapazinho que alegremente me incentivara a correr. Quantos da idade dele chegariam à minha? Quantos, tão jovens e bonitos, viris e tecnológicos, musculosos, celularifônicos, twiterianos, internetianos, afinal, serão vitimados pelos criminosos, afogados pelos tsunamis, soterrados, atropelados ou contaminados e jamais terão a sorte de poder ouvir um jovem a lhes lembrar a velhice... assim como: “Corre, velho. Corre!”
Então, do fundo do meu coração perdoei a brincadeira dele e pedi a Deus que lhe desse a chance, a magnífica chance de envelhecer.
