quinta-feira, 15 de dezembro de 2011






 De repente você está velho. Aos sessenta e tantos anos, suas pernas não lhe atendem tão bem, suas juntas perdem parte da lubrificação, seus músculos vão perdendo massa e você vai se tornando lento e cansado. Um dia, um jovem com um terço de sua idade lhe aconselha correr. Mas o faz com tamanha irreverência que você se sente chocado. Após alguns longos minutos de conjecturas, você, finalmente, perdoa a maneira descuidada do seu interlocutor. Afinal, você mesmo poderá ter feito isso quando era jovem, concorda?




 CORRE, VELHO.  CORRE!


Enquanto eu corria para embarcar no ônibus que havia parado a uns cinquenta metros do ponto em Macaé, assim me “incentivava” o jovem que desembarcara do coletivo. Seguindo o conselho do rapaz, acelerei  o passo, mesmo sem conseguir correr. Assim que me sentei, não pude deixar  de lembrar  da irreverência daquele jovem que, mesmo sem intenção de me magoar, o tinha feito, chamando-me de “velho”.
“Corre, velho. Corre!”  Duas horas e meia de viagem, de Macaé a Cabo Frio, e aquela frase me veio “martelando” a cabeça, tirando-me a possibilidade de descansar no confortável ônibus intermunicipal. Nem o ar condicionado ou a bela paisagem conseguiram me consolar e foi nascendo em mim a vontade de responder àquele rapaz na mesma medida, à altura do que ele me dissera. Quando nos cruzamos, a meio caminho da porta do ônibus, pude notar que ele transportava um envelope pesado, recheado de folhas tamanho ofício. Estava bem trajado e arrumado, como fazem pessoas à procura de emprego e afins. Como a região era a área de empresas que tratam do petróleo de Macaé, facilmente depreendi que o menino almejava uma contratação no ramo do óleo e do gás e que aquele chumaço de papéis deveria ser um monte de currículos que ele iria distribuir pelas multinacionais da cidade, sonhando com uma resposta que lhe favorecesse. Fiquei pensando...um menino de vinte e dois anos, se muito, cruza com um senhor de sessenta e oito  e, em tom irreverente, aconselha o “velho” a correr para que não perca o ônibus...
Eu tinha o triplo da idade dele. Estava voltando de uma jornada de aulas que leciono a grupos de técnicos e engenheiros de uma das maiores empresas de petróleo do mundo. Tenho três filhas lindas e resolvidas que me deram seis netos. Plantei várias árvores, escrevi até agora quatro livros e mais de mil e quinhentos artigos, poemas e ensaios. Conheci cem vezes mais pessoas, entre amigos, namoradas, alunos e mestres que aquele rapaz. E já não tinha mais a necessidade de distribuir currículos a esmo. Já tinha o meu lugar ao Sol.
Subitamente senti vontade de chorar pelo rapazinho que alegremente me incentivara a correr. Quantos da idade dele chegariam à minha? Quantos, tão jovens e bonitos, viris e tecnológicos, musculosos, celularifônicos, twiterianos, internetianos, afinal, serão vitimados pelos criminosos, afogados pelos tsunamis, soterrados, atropelados ou contaminados e jamais terão a sorte de poder ouvir um jovem a lhes lembrar a velhice... assim como: “Corre, velho. Corre!”
Então, do fundo do meu coração perdoei a brincadeira dele e pedi a Deus que lhe desse a chance, a magnífica chance de envelhecer.

2 comentários:

Maria Letr@ disse...

Bem, eu hoje soube que se quiser ler o que escreve - e muito bem! - terei de vir aqui. Se mo permitir, virei. E virei pelo simples facto de que não só gostei do que escreveu no seu perfil, como gostei da forma como escreveu o seu penúltimo texto, no anterior blog. Valorizei a transparência com que o fez, dando-nos a possibilidade de apreciarmos a sua generosidade, a sua tolerância e a sua capacidade de "self-judging" uma atitude dum jovem, ultrapassando assim a subtil mágoa que transparece no seu texto. Senti saberá sublimar em si a consciência de que, na verdade, tem a idade que tem.
Meu amigo, eu passo por cima dessas coisas com aquele tal orgulho - que referiu - de poder sentir a felicidade de ter vivido até hoje. Amanhã, seja o que Deus quiser. Possívelmente o MEU Deus até me dirá que não terá sido graças a Ele, mas tal como diz minha Mãe, que tem 95 nos, teria sido graças a mim.
Não me compete, de forma alguma, julgar as razões pelas quais eu terei de vir aqui ler o que escreve. Mas posso julgar o consentir-mo com um simples: Obrigada por ter-me visitado e comentado tão generosamente o meu poema. Um abraço.

Vania Gomes disse...

Simplesmente brilhante, Tony! Sua crônica muito bem escrita nos convida a uma reflexão pertinente, de que nada é perene. A juventude é passageira e talvez um dia ele entenda a verdadeira extensão de suas palavras. Sabe, fique meio abismada. Será que ele não tem idosos na sua família? Eu tive avós e sempre convivi com eles, tive presentes em minha vida tios dos meus pais e aprendi não apenas a respeitar, mas a ajudar. Por quê este rapaz não "segurou" o ônibus? Por quê ele não fez hora para descer ou disse ao motorista para esperá-lo? Sinceramente, faltou respeito, cuidado com próximo... Mas sua reflexão foi belíssima e o final mostrou toda sua bondade, meu querido Tony! E sempre bom demais te ler! Beijos.